
No cimo da muralha o crepitar ocasional de uma flecha perdida desfazendo-se contra a pedra impenetrável não impediam que olhos penetrantes o procurassem e perseguissem por entre a amuralha.
Como se pressentissem, os seus olhos encontraram os dela. Por momentos o tempo pareceu parar fixando este olhar que fazia relembrar tempos recentemente idos mas ainda gravados na sua memória. Momentos em que ele, mais que marido, fora apenas seu amante.
O som metálico de uma flecha mais atrevida que embatia na parede atrás de si fez com que ela quebrasse o contacto. Tentou recuperar o seu olhar mágico mas ele já lá não estava. Como que tomado por uma loucura repentina, galgava por cima de combatentes já caídos ou que caíam pelo fio da sua espada.
Custava-lhe respirar ao ver a forma selvagem e dedicação redobrada com que lutava, nada o parando no novo caminho que tomara e que o trazia na sua direção.
Seria possível que ele acordara de repente? Que finalmente vira que ela nunca deixara de o amar?
O seu coração parecia querer rebentar no peito ao vê-lo alcançar a escadaria que o trazia diretamente na sua direção.
Estava ofegante quando chegou junto a si e se ajoelhou. Ela não queria acreditar, pela primeira vez desde que o conhecera ela via alguma fraqueza.
Ele não se levantou nem lhe tocou. Ao invés permanecia a seus pés chorando. Nos seus braços segurava uma delicada figura feminina vestida de um branco imaculado que só um tom vermelho teimava em manchar.
O mesmo tom avermelhado que tingia a flecha que seu amado agora segurava na mão.